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O cênico no canto coral: uma parcela da dimensão da canção popular |
O
ato de cantar a música popular numa formação coral, embora prática altamente
utilizada, provoca nos ouvintes alguns estranhamentos. Podemos reparar que tais
estranhamentos são ainda mais notáveis em ouvintes sem proximidade com o canto
coral. Obviamente não estamos discursando sobre estranhamentos provocados por
elementos icônicos presentes numa obra artística, mas de um certo incômodo ou
mal estar decorrentes de questões artísticas mal resolvidas numa apresentação
coral.
Passando das observações para a tentativa de compreensão desse fenômeno, podemos notar algumas distorções de cunho artístico e estético que por sua vez podem nos levar a algumas reflexões. Para tanto utilizaremos relatos dos trabalhos corais que realizamos desde os anos 80, período de várias divagações e experimentações em torno do assunto.
Nossa
primeira grande incursão no trato da música popular em coro ocorreu por volta
de 1984 quando o Coral da USP-Ribeirão Preto, do qual fomos seu primeiro
regente, cantava um arranjo da canção Travessia, de Milton Nascimento,
feito por Damiano Cozzella. Para que a melodia, iniciada pelo naipe de baixos,
fosse cantada por todos uniformemente e de acordo com a escrita musical, esta
era cantada de forma bem marcada, com acentuações em cada nota (Quan-do
vo-cê fo-i_em-booo----rá). Notando
que esta interpretação era muito distante daquilo que se ouvia com o próprio
Milton Nascimento, a intenção da regência se transferiu da marcação exata
das notas para uma condução da melodia mais próxima do original. Esta conduta
fez com que a interpretação ficasse mais solta, menos marcada, mais leve.
Embora
a ação da transferência de atenção do rigor rítmico da escrita musical
para a sonoridade original da canção possa parecer lógica e simples, ela
provoca também grandes alterações na prática coral: a transferência da
percepção visual do corista em relação ao regente para uma maior percepção
auditiva em relação à base rítmica; a independência da melodia em relação
ao acompanhamento (e conseqüentemente um certo “desrespeito” ao rigor da
escrita musical); perda da sonoridade, em termos de volume, em função da
ressonância diferenciada da música popular; e maior relaxamento e soltura
corporal.
Outra
peça que proporcionou ao coro grandes experimentações foi Ruidismo dos
Pobres, composição a quatro vozes do próprio arranjador de Travessia.
Esta peça, que trabalha sonoridades – indo de vogais e consoantes a sílabas
e frases inteiras cantadas e faladas -, incorpora pequenas ações cênicas
em "solos" ou "duetos"[1].
A grande liberdade de ação propiciada pelos solos aleatórios, indicados na
partituras por sinais de interrogação, gerou no grupo um comportamento também
de soltura corporal, embora de forma mais medida e trabalhada do que numa canção
popular.
Os
dois caminhos percorridos pelo grupo gerou no Coral da USP-Ribeirão um trabalho
onde o cantar a canção popular significou não coreografias de movimentos mas
a procura por uma linguagem híbrida, onde música, movimento e teatro
estivessem juntas no momento da performance. Este trabalho se
concretizaria posteriormente, com o Grupo Vocal Bossa Nossa, também da USP, que
falaremos mais adiante.
A
pesquisa da linguagem do Coro-Cênico nos levou a trabalhar junto ao Coral
IBM-Campinas, onde, no período de três anos, o grupo foi incorporando
lentamente o recurso cênico na interpretação da canção popular. Neste caso,
um coro com perfil muito diferenciado do anterior: de empresa multinacional, com
idade média em torno dos trinta e cinco anos, normalmente pais de família, e
com histórico de regentes ligados à igreja protestante. Remetemo-nos portanto
a um repertório composto de música popular brasileira com mensagens positivas,
amorosas e integrativas e música folclórica também com o mesmo perfil. Não
houve a intenção de se quebrar a estrutura social e psicológica do grupo mas
sim a de mostrar outras formas de pensamento artístico via repertório e performance.
Acreditamos que tal intento foi obtido com o preparo e a apresentação de um poutpourri
de canções da ópera Porgy and Bess, de George Gershwin. O tema desta
ópera, talvez a mais próxima da realidade popular contemporânea - onde
assuntos como a pobreza, discriminação social, drogas e religião são
abordados - encaminhou o grupo a uma discussão dos textos e à audição das
canções, propiciando uma abertura a novas vivências e novos desafios.
Juntamente
com uma professora de técnica vocal, não para produzir um som operístico mas
para melhorar a condição sonora do grupo, e um diretor cênico[2],
foi realizado um trabalho conjunto visando a formulação de um produto acabado
de aproximadamente 15 minutos. Desta vez o trabalho foi baseado na movimentação
do grupo e disposição dos naipes para maior controle sonoro. Passamos a
trabalhar a libertação da figura do regente para que as apresentações não
fossem mais regidas, concentrando a atenção do grupo para a sua própria
interpretação, propiciando maior autonomia. Houve até mesmo apresentações
com uma peculiar regência de movimentação. Este resultado se assemelha
um pouco ao teatro musical hollywoodiano, apenas uma das vertentes do que
atualmente podemos chamar de Teatro-Musical[3].
Outra
experiência não exatamente com coro-cênico mas que trouxe certo subsídio
para a prática da linguagem, foram as montagens de duas óperas: La Serva
Padrona e A Flauta Mágica, a primeira com textos em português e árias
no original em italiano e a segunda totalmente em português. Ambas foram
dirigidas cenicamente também por Zédú Neves e sob nossa regência, o que
possibilitou ainda mais o aprofundamento de algumas questões. Em La Serva
Padrona, os instrumentistas de cordas tinham que "participar" das
ações cênicas, não somente porque a orquestra ficava no fundo do palco, tal
qual um grande quadro na parede, o que exigia recursos gestuais e corporais por
parte dos instrumentistas, mas também porque agiam sonoramente frente às ações
dos cantores, realizando música incidental, fato incomum em orquestras mas
bastante usual em teatro e shows populares. Já n'A Flauta Mágica,
a maior conquista foi com relação à jovialidade e leveza alcançadas com a
junção de condutas da linguagem operística com as da prática coral-cênica.
Os clichês gestuais contidos na prática operística foram substituídos por
gestos e movimentações mais teatrais e mais modernos. A sonoridade vocal
impostada e por vezes demasiadamente fechada, foi substituída por uma
sonoridade mais leve e com dicção mais pronunciada, facilitando a compreensão
do texto por parte do público. Podemos considerar que apenas estes fatos sejam
indícios de uma possibilidade de ganho com o cruzamento das linguagens operística
e coral-cênica.
A
continuidade da nossa experimentação retorna ao Coral do Campus da USP de
Ribeirão Preto, desta vez com o Grupo Vocal BoSSa NoSSa, e de forma mais
aprofundada. Sem pensar em questões cênicas, o grupo se utilizou inicialmente
de arranjos de canções norte-americanas dos compositores George Gershwin e
Cole Porter. Com o tempo, a necessidade de se cantar canções brasileiras se
impôs, impondo também a necessidade de se perguntar como cantar, levando as
experimentações principalmente para a questão sonoridade do grupo. A pergunta
era: Qual o som que se queria fazer? As discussões se encaminharam então para
a Bossa Nova, cujo estilo, um dos mais representativos da cultura brasileira,
poderia servir como modelo para uma sonoridade coral. Com arranjos escritos
especificamente para o grupo[4],
foram realizados ensaios visando aproximar a sonoridade do grupo àquela do
movimento Bossa Nova, via audição e reprodução do som de João Gilberto na
canção Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. A melodia
era reproduzida pelo naipe de Baixos, que tentava acompanhar todas as nuances,
inflexões e deslocamentos de notas que o intérprete fazia. Tais deslocamentos
aconteciam mesmo com a maior aproximação possível dada pela notação
musical. Isto nos remete àquilo que Martha Tupinambá denomina de métrica
derramada[5],
que em síntese é a melodia/texto que se canta quase independentemente da base
rítmica, fortemente presente na canção popular brasileira.
Os
primeiros resultados dessa experimentação coro e canção popular, desde que
se queira uma aproximação com a canção original, foram então a não obediência
à métrica estabelecida na partitura, por mais próxima que ela esteja do
original; e a sonoridade voltada mais para o aspecto da dicção do que do
volume. O assunto "volume em um coro cancionista" faz parte da discussão
sobre a poética do microfone, que poderemos tratar em outra oportunidade.
Podemos
considerar porém, que o passo mais importante dado pelo grupo, tenha sido o da
decisão de se enfrentar a cena sem a timidez normalmente presente nos coros
tradicionais. Tal decisão exigiu a presença determinante de um diretor cênico[6],
que imprimiu não apenas uma dinâmica de movimentos, coreografias ou gestuais
àquilo que se cantava, mas despertou no grupo a necessidade da incorporação
de técnicas teatrais. Ou seja, a linguagem teatral passaria a ter tanta importância
quanto a linguagem coral, ou, no mínimo, aquela tentaria se equiparar a esta. O
fato decorrente desta decisão é inevitavelmente a perda, no mínimo temporária,
da condição qualitativa musical.
Como
se trata de uma linguagem híbrida, a incorporação de meios provoca sempre a
perda da importância de outros meios. Neste sentido, os arranjos também se
modificam em função da incorporação da linguagem teatral, fazendo com que
surja uma nova escrita, mais coerente com a nova linguagem e à qual se adere de
forma indissolúvel. Na verdade, o ideal seria que não fosse possível apenas
uma audição da música, mas sim uma percepção auditiva/visual do espetáculo
ou peça.
Foram
montados dois espetáculos com o grupo: "Conversa de Botequim"
e "bossa@usp.br",
sendo que o primeiro fez parte da etapa inicial do processo cênico, quando
grande parte das músicas já haviam sido arranjadas sem o pensamento da
linguagem híbrida. Já no segundo espetáculo, várias peças e um bloco
completo de músicas tiveram seus arranjos baseados na concepção híbrida.
Para a consecução mais acabada deste bloco inteiro, o qual se denominou
"comunicação", foi introduzida então a figura de uma orientadora
corporal[7], necessário em razão de
movimentações presentes no espetáculo baseadas em elementos culturais
brasileiros tais como samba, capoeira e carnaval. Trata-se da especialização
cada vez mais presente na formulação da linguagem.
Observamos
que estas experimentações foram realizadas por nós junto a coros ligados à
universidade, não necessariamente de universitários, e a um coro de empresa,
todos de caráter amador. Outras produções corais cênicas, que auxiliaram no
desenvolvimento da linguagem, foram realizadas por grupos profissionais ou
semi-profissionais como por exemplo "Elsinore: variações sobre o tema
Hamlet de W. Shakespeare" (1990), provavelmente o mais bem acabado
espetáculo coral cênico realizado no país, pela "Companhia Coral".
Foi dirigido por William Pereira e contou com a regência de Samuel Kerr, um dos
iniciadores do coro-cênico no país.
Notamos
que a prática do coro-cênico, embora ainda um pouco relutante, vai se
ampliando cada vez mais. Até mesmo cursos sobre o assunto são realizados em
diversos locais do país, tanto para coro adulto como para coro infantil, já há
vários anos. Tal prática, no entanto, somente poderá ser considerada
verdadeiramente uma linguagem a partir do momento em que ela conquiste
determinadas condições sociais, ideológicas, formais, semióticas, e até
mesmo jurídicas e econômicas, utilizando-nos da teoria do semioticista Franco
Fabbri.
Há, portanto, que se encarar seriamente as propostas de produções corais-cênicas não apenas como produto em si, mas principalmente enquanto possibilidade de desenvolvimento desta linguagem, fruto da dimensão múltipla da canção popular.
Sergio
Alberto de Oliveira. Regente e Mestre em Artes pela UNICAMP. É
Diretor-Artístico e Regente-Titular dos Corais da USP-Ribeirão Preto, regente
do Coral do Centro Médico de Ribeirão Preto, cantor e cravista do Musica Rara
- Grupo de Música Antiga e membro do NuCAM (Núcleo de Consultoria e Assessoria
Musical). É membro fundador da ABRC (Associação Brasileira de Regentes de
Coros) e membro da ANPPOM (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação
em Música).
[1] Outro compositor que incorporou ações cênicas em suas peças musicais, corais e camerísticas, foi Gilberto Mendes, um dos baluartes da música contemporânea brasileira.
[2] Zédú Neves, ator e diretor teatral formado pela UNICAMP.
[3] Este denominação é a utilizada por Paul Griffths na Enciclopédia da Música do Século XX, onde a ópera, por exemplo, passa a ser um dos gêneros do Teatro-Musical.
[4] Todos os arranjos, após esse período de resoluções quanto à sonoridade, foram realizados por José Gustavo Julião de Camargo, Orientador de Estruturação Musical do Coral da USP-Ribeirão.
[5] Mais detalhes sobre o assunto podem ser encontrados em ULHÔA, Martha Tupinambá. "Estilo e emoção na canção: notas para uma estética da música brasileira popular". São Paulo, Atravez, Cadernos de Estudos: análise musical, nºs. 8/9, nov/1995. Pp. 30-40. E "Métrica derramada; prosódia musical na canção brasileira popular". Rio de Janeiro, ABM, Brasiliana: Revista da Academia Brasileira de Música, nº 2, 2/maio/1999.
[6] O diretor cênico, Prof. Dr. Magno Bucci, é docente da UFSCar e trabalha com o coro conveniado com a USP de Ribeirão Preto.
[7] A orientadora corporal, Patrícia Sene, é dançarina e professora formada em dança pela UNICAMP.
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