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O Movimento ( natural e necessário) das Leituras Dramáticas

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por: Evill Rebouças 

O universo nos propõe vivermos o movimento natural das coisas, movimento este que naturalmente pode nos conduzir às novas alternativas de sobrevivência. E quando aproveitamos a caminhada que ora nos destinam, valiosas descobertas podem ser absorvidas. Com a casa que tanto queremos edificar. Casa que pode ser levantada de formas infinitas. Mas levantar casa é algo natural. Interessante mesmo é ter consciência de que a casa só vai existir se houver habitantes. Mas de habitantes que se importam em construir a casa e, principalmente em vencer os desafios que a natureza naturalmente nos oferece, levando á desmoronamento ou substituição.

E seguindo esse curso, o tempo obviamente caminha e clama progresso (e caminha tanto que já chegamos ao ano 2000 – eu mesmo jamais imaginei que iria conseguir escrever na folha de cheque um 2 e mais um monte de zeros, que na verdade são apenas três, mas para quem estava acostumado com tantos noves, é como estacionar um carro em São Paulo e não ter nenhum flanelinha pedindo para olhar seu carro). E acompanhando o galope do progresso, presenciamos o avanço da tecnologia: esta avança tanto que até o coitado do analfabeto teve que aprender a digitar a data de nascimento – mais conhecida como senha para retirar a aposentadoria.  E as artes não deixam por menos, modernizando-se. A música, por exemplo, embriona novos ritmos – tá certo que na maioria das vezes, todos parecem ter a mesma cara, ou melhor, a mesma bunda... Mas a baiana é nova! E o teatro – que sempre corre á margem de tudo e tenta sobreviver, ou melhor, conservar suas casas ameaçadas naturalmente, entre outras intempéries, pelos tempos religiosos – também procura inovações.

Arte que basicamente sobrevive do conjunto de esforços de um grupo de pessoas que na maioria das vezes também subvencionam o trabalho que ora desenvolvem, o teatro e especificamente a dramaturgia, nesta última década ganhou um novo segmento: A leitura dramática.

Quantas vezes um artista de teatro já não se deparou com o seguinte paradoxo?:

_ Hamlet é lindo... Mas o Shakespeare comete um erro gravíssimo: Muito Personagem! Mesmo que agente adapte e tire Ofélia, Claudius, Gertrudes e o Espectro, não dá. E a produção disso? Só para pagar ao tecido dos figurinos, vai toda a bilheteria de toda uma temporada. E mesmo que agente opte por uma montagem experimental, colocando todo mundo nu, ainda assim agente não consegue dinheiro para comprar as caveirinhas...

Liberdades literárias à parte, a realidade financeira é verídica.

Partindo do simples – onde simples significa: “não há recursos financeiros para a produção desta”- e apropriando-se dos recursos humanos, fornecidos basicamente pela interpretação de cada ator; se por um lado a poesia dramática suscita um “confinamento” a encenação, por outro, contribui com o surgimento de um espectador que está ali também para construir sua casa, a sua encenação. Em outras palavras: como a confecção de uma almofada. Como se a forma, o desenho da almofada ficasse por conta do espectador, e o recheio por conta da carga interpretativa dos atores. Sem querer ser repetitivo ao citar a música baiana, mas há uma certa correlação entre a literatura dramática e o axé music: se o primeiro caso a bunda é essencial ao ritmo, no segundo, a almofada será confeccionada de acordo com a necessidade de cada traseiro. Mas com uma diferença básica: a massa á ser utilizada nesse caso, a cerebral, é convidada ao exercício da imaginação, tornando o espectador, um encenador, um indivíduo que concebe e cria sua encenação.E nesse sentido, o teatro ganha mais uma vez.

Como?Os palcos principalmente nessas últimas décadas, nos ofertaram uma variedade de espetáculos onde havia e há uma preocupação extrema no que se diz a respeito à encenação (fator também fundamental a um bom espetáculo), mas o ator, uma das ferramentas vitais dessa engrenagem, encontrava-se e ainda encontra-se, completamente esquecido.

...E pelo caminho da leitura, Shakespeare, Moliére, Arthur Miller, Becket, Tennessee Willians, Nelson Rodriges, Martins Pena, Quorpo Santo – autores considerados difíceis – sejam pela linguagem, sejam pela dificuldade em conseguir os direitos autorais para montagens ou pela grandiosidade de recursos a serem captados para realização de suas produções – chegam ao público. E movidos pela curiosidade, chegarão aos teatros para verem a materialização do que imaginara.

Felismente, há alguns anos vem surgindo vários movimentos, grupos de artistas que estão fortificando esta nova maneira de “fazer teatro”. Nesses últimos dez anos, podemos citar, por exemplo, só em São Paulo, a grande contribuição da Sociedade Lítero-Dramática Gastão Tojeiro (reconhecida pelos Prêmios SHELL, APCA e APLAUSO pelos trabalhos desenvolvidos) que hoje conta com 38 associados que pagam e trabalham para a realização de leituras e soma em oito anos ininterruptos de leituras, mais de 300 pecas teatrais lidas. Somando-se a Gastão, vieram ainda àquelas realizadas pelo jornal “Folha de São Paulo”, pelo “Espaço X”, pela casa noturna “Bastidores”, pela “Cooperativa Paulista de Teatro”, mestre Chico de Assis (que além da forma dramaturgos, também permite aos mesmos levarem suas obras à leitura pública para debates), e no Riu de Janeiro, a SBAT- Sociedade Brasileira de Autores teatrais.

Emfim, uma colaboração que não pode e nem deve ser vista como forma sobistitutiva do faser teatral, mas que acompamha o movimento natural das coisas, movimento este que naturalmente pode nos conduzir à novas alternativas de sobrevivência. Como a casa que tanto queremos edificar. casa que pode ser levantada de formas infinitas... o Teatro!

 

Evill Rebouças

Ator, Dramaturgo e diretor de teatro

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